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Quando a crise bate a porta

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Por Pr. Macéias Nunes

Há quem pense que falar em crise no casamento é mera redundância: o casamento é a crise.

Nesse sentido, a exceção é a felicidade. A regra é um contínuo de conflitos  truncando de tal forma o relacionamento que este acaba se tornando um problema a mais. Quando isso acontece, o rompimento é quase inevitável, de fato sempre e de direito quando  possível. 

Porém, o que é verdadeiro para casos matrimoniais específicos não o é  necessariamente  para a realidade genérica do matrimônio.

O que precisa ser tido em conta é que o casamento é apenas uma forma particular de relação entre pessoas humanas, nem melhor nem pior do que  qualquer outra, mas apenas mais complexa e abrangente.  E que como em  qualquer forma de relação entre pessoas humanas, a maneira de lidar com o problema, por mais grave que este seja,  é decisiva, para o bem ou para o mal,   na busca da   solução desejada.

Os oficiantes de cerimônias nupciais têm o saudável hábito de lembrar ao casal que todo casamento tem seus dias de crise. É provável que a maioria dos nubentes veja nisso apenas mais um detalhe obrigatório na composição  do cerimonial.  Tempos depois – ou talvez pouco tempo depois - quando a primeira crise grave irrompe,  é quase certo que nem se lembrarão das advertências pastorais quanto às causas do  desentendimento, muito menos  das conseqüentes prescrições  destinadas ao tratamento adequado da situação. Talvez por isso seja mais producente ter algum material escrito à mão, para repassar as lições na hora necessária. 

A Bíblia tem muito a dizer sobre isso,  mas o simples texto bíblico, isolado do conjunto de concepções, práticas e sentimentos  que constituem o padrão da conduta cristã aplicada à união conjugal, tende a permanecer ineficaz no momento da crise.

Esta crise pode nem começar no quarto de dormir, mas é inegável que costuma sentir-se muito confortável nele.

A crise na cama

Para algumas pessoas, sexo é uma coisa simples e natural, praticada sem traumas  ou complicações. Para um número   provavelmente bem mais amplo, é um negócio terrivelmente complicado,  que envolve não só a paixão, a emoção e o prazer da fusão de dois corpos em busca de algo muito superior ao mero efeito físico dela decorrente, mas, dependendo do caso, também culpa, medo, frustração e dor. A crise se instaura quando os aspectos negativos começam a ter mais peso  na relação do que os positivos. Em geral, a vida sexual  do casal sofre então uma espécie de recesso não declarado, tornando-se rarefeita e pouco compensatória.

Começa que o balizamento histórico-cultural para as gerações recentes não é dos mais favoráveis. De um lado está  toda a carga repressiva oriunda de uma interpretação  legalista, de inspiração católica,  da ética  sexual de cunho bíblico. Nesse sentido, a prática sexual que não leve necessariamente à  procriação é vista como pecaminosa. Do outro, a explosão de  amor livre e de vulgarização do sexo que invadiu o ocidente a partir dos anos sessenta do século XX.

Nessa perspectiva, o sexo virou uma espécie de vale-tudo tutelado pela ânsia do prazer a qualquer custo. Virou um fim em si mesmo, desligando-se dos demais aspectos que lhe infundem sentido dentro da união matrimonial.

No varejo da crise, podem ser várias  as causas para o truncamento da vida íntima do casal.  Pode ser a impossibilidade forçada pela doença de um dos parceiros. Pode ser o excessivo recato e inexperiência  de um deles, considerada a liberdade relativa  que o outro entende necessária ao ato. Ou a exacerbação dessa liberdade, no lado oposto. O que poderia e deveria ser somente um caso de  reflexão conjunta  quanto a limites necessários e, de resto, inevitáveis,  torna-se uma discussão de fundo moral permeada de acusações e  hostilidade.

Não é rara a ocorrência do que se pode chamar de falta de vocação para o sexo no homem ou na mulher: existem pessoas que passariam muito bem sem sexo mas que passam muito mal quando têm que praticá-lo, e ainda mais de forma rotineira. Provavelmente, são pessoas com o dom do celibato que, entretanto, se casam(Mateus 19.11). São a contrapartida para as pessoas sem esse dom que, entretanto, não se casam. Pode ser o cansaço ocasionado pelas exigências da vida moderna, deixando pouco espaço para o cultivo de uma vida sexual saudável e satisfatória.

Há também os detalhes que atrapalham por inabilidade dos parceiros. Sexo é uma porção de coisas, mas no ato em si é mais atmosfera(o tal “clima” de que falam os mais jovens), que se configura por meio da sensibilidade, da percepção e da entrega mútua. Se, por exemplo, fechada a porta, um dos dois inicia um assunto totalmente alheio à situação do momento, quebra-se a atmosfera. Se um dos parceiros tem formas de expressão pessoal irritantes, isso também atrapalha. Um exemplo é o chorinho de cachorro do personagem-título do romance "O Outono do Patriarca", de  García Márquez. Guinchos à moda suína também não ajudam nada, entre outras bizarrices. Isso para não falar de uma espécie de “não me toques” que parceiros  tendentes a se melindrar com facilidade levam para o leito, impedindo que o outro fique à vontade. Ou então no uso político da relação, em que situações do cotidiano são cobradas na hora menos apropriada para isso.

E há, finalmente, sem esgotar o repertório, a ausência de amor verdadeiro entre os cônjuges ou a interferência de problemas de outras áreas na vida sexual.

A crise no mercado

Jorge está desempregado há três anos, período que, para os padrões brasileiros, nem é tão grande assim. Sustenta-o sua mulher. Felizmente, no caso, o casal nem tem filhos nem paga aluguel. Contudo, vez por outra, Sueli confidencia a amigos que já não está agüentando a barra, mesmo porque o marido perde a guerra mas não perde a pose. O problema é que  ele só admite trabalhar  na profissão pela qual se formou na universidade.  Jorge é arquiteto, mas mesmo os arquitetos ficam sem emprego por muito tempo. Não há como uma situação dessas não afetar a vida conjugal.

Para a mulher provedora, mesmo sendo uma cristão sincera,  é muito difícil aplicar na prática o preceito bíblico da submissão ao marido beneficiário(Efésios 5.22). A crise está presente e se não explode de vez é porque Sueli têm tanta paciência em suportar o marido quanto este em suportar uma situação que a cada dia se torna mais e mais  constrangedora – e insuportável. Se não houver mudanças, o futuro da união é no mínimo pouco promissor. 

A crise é inevitável quando a mulher gasta demais e o marido é fanático por poupança. Ou vice-versa. E  tem o poder devastador de um terremoto quando um dos dois ou ambos praticam o que pode se chamar de dívida compulsiva.  A voz corrente é que as mulheres são as vilãs nessa parte da história, mas isso parece mais um estereótipo machista. Há mulheres que agem com grande responsabilidade e equilíbrio,  a propósito. Existem homens que lidam com o orçamento familiar como se fossem crianças, como se não  houvesse  qualquer conta a prestar(ou a pagar) ao futuro ou a  gastos menos imediatistas e desnecessários.

Vivemos em uma época na qual a pessoa é estimulada o tempo todo a consumir por consumir e a dever sem precisar. Existem pessoas que parecem pensar que sem dívidas a vida não tem sentido. Não  é atoa  que os bancos obtêm lucros altíssimos.  Casais que não controlam a propensão ao consumo desordenado e ao conseqüente  gasto excessivo acabam com um parceiro cobrando do outro aquilo que ambos terão que pagar à agiotagem  quando  esta apresentar sua face implacável.

É uma ilusão imaginar que as facilidades oferecidas pelo mercado não incluem  seu preço.  Assim como não existem almoços grátis, também não existe financiamento sem juros ou compra com desconto. O que existe é um negócio que já se chamou propaganda e que hoje se chama marketing, cuja principal função é, na linha do que pensava um eminente pensador alemão que atendia pelo nome de Dr. Goebbels, fazer com que , por via de sua exaustiva repetição, a mentira acabe parecendo verdade.

Quando a situação material não encontra seu ponto de equilíbrio na vida da família, os efeitos na relação conjugal  podem  ser catastróficos. 

A crise na biblioteca

Trata-se aqui do que pode ser chamado de defasagem cultural com efeitos  negativos na comunicação entre  os cônjuges. Ocorre que pelos  caminhos e atalhos da vida Maria acabou indo mais longe do que João em termos de conhecimento e informação. Ou então João é quem se atualizou, quem articulou  melhor as diversas visões de mundo presentes em um mundo cada vez mais plural e sofisticado, quem cresceu e continua crescendo em termos de saber, compreender e realizar, quem, enfim, está sintonizado com a vida em todos os seus aspectos significativos. Maria estagnou numa abordagem limitada e estática da vida e dá a entender que não pode ir mais longe do que já foi.

Se amar, como dizia o melodrama do cinema, é olharem ambos na mesma direção, o que acontece no caso é que a vista de Maria(mas podia ser a de João) é melhor em termos de amplitude, alcance e acuidade. Ela entende melhor as coisas, capta com rapidez as diversas nuanças de um assunto, é mais inteligente, tem um vocabulário rico e criativo,  gosta de ler e consegue ler nas entrelinhas, interessa-se por temas que extrapolam sua  área profissional ou sua  confissão religiosa ,  preocupa-se com os  destinos do mundo e está disposta a fazer algo, é flexível e firme ao mesmo tempo, cuida da aparência sem ser superficial e vulgar. E vai por aí.

João(mas podia ser Maria) tem muitas dificuldades em colocar-se no mesmo padrão, razão pela qual os dois não andam se entendendo bem. Na discussão, cada vez mais freqüente, ela o chama de burro e ele a chama de metida a besta, para ficar no publicável.

Pode-se perguntar: “E por que casaram-se  um com o outro?” Quem pergunta isso não conhece bem a alma humana. Mesmo quando unificam  seu discurso em torno da motivação afetiva do casamento,  a realidade é que muitos homens e mulheres casam-se por motivos diferentes do simples fato de amarem o outro.  O papel da atração física nunca pode ser subestimado, muito menos o do dinheiro ou o do prestigio social.  Certas mulheres casam-se meio no desespero, por causa da idade que vai avançando demais. Além do mais, o próprio casamento, o tempo e a vida em geral vão mudando o jeito das pessoas. Há, como foi dito, quem continue crescendo até o último suspiro e há quem ache que isso é exigir muito de quem nasceu para chegar a um certo limite e parar aí.

Dessa forma, cria-se entre os dois um irritante diálogo de surdos. O que interessa a ela não interessa a ele, e vice-versa. Não se trata nem de assuntos isolados, mas da maneira de abordá-los. Porém, pode ser algo bem objetivo do tipo um gostar de Bach e outro não achar graça nenhuma nele. Gosto não se discute e as coisas ficariam razoavelmente bem se esse outro gostasse, por exemplo, de Beethoven. Talvez nem precisasse chegar a tanto – mas porque vai gostar logo de pagode e funk?
 
Conclusão

Esse artigo  deteve-se  em três fontes de crise no casamento, sem com isso esquecer a existência de outras, igualmente críticas. Casais podem entrar em rota de colisão por questões religiosas(inclusive pelo que um dos dois considera e excessiva dedicação do outro à igreja, em detrimento da família). Podem se separar por isso, como também  por motivos relacionados a projetos pessoais de vida que não podem ser conciliados na vida em comum. Podem inclusive brigar feio pelo simples desgaste de uma rotina  conjugal sem criatividade, sem beleza e sem perspectiva de evolução. Podem se desentender por causa de ofensas cotidianas não curadas, as quais provocam o  ressentimento que mais dia menos dia cobrará seu preço amargo. Podem, enfim, chegar ao desenlace em virtude de não estarem devidamente preparados para os desafios da vida de casados, em especial na questão dos filhos.

O problema  é a crise, sem dúvida, mas ainda mais a maneira de lidar com ela. É preciso lembrar que casamento sem crise é uma casamento pobre. A crise é a vida em sua realidade. A possibilidade de sua superação é a possibilidade de crescimento interpessoal e de enriquecimento da experiência individual e comum. Aqueles que continuam juntos depois do vendaval e conseguem caminhar sem resignação a um estilo de vida conjugal meramente tolerável, são os vitoriosos na vida a dois.

Uma atitude que pode ajudar é não ter medo da crise, ou, em outros palavras, não provocá-la pelo exagero nos cuidados ligados à tentativa de evitá-la. Seres humanos, mesmo que sejam marido e mulher, se desentendem. Outra medida prática necessária é não deixar uma discussão ir subindo de tom até alcançar o nível da agressão moral ou física. Enquanto der para conciliar, que se concilie. A supressão das causas que provocam a crise é evidente que precisa ser executada, quando possível. A oração constante sobre a temática conjugal e familiar é imprescindível (1 Coríntios 7.5), mas, como em relação a qualquer outro dos assuntos humanos no mundo, não pode ser motivo para o desleixo em relação ao  dever conjugal mútuo. Terapia de casal ajuda também, quando as bases de um casamento feliz estão presentes, a começar pelo amor.

Sem este o casamento é, realmente, a própria crise.

 

 
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