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Há quem pense que falar em crise no
casamento é mera redundância: o casamento é a crise.
Nesse sentido, a exceção é a felicidade. A regra é um contínuo de
conflitos truncando de tal forma o relacionamento que este acaba se
tornando um problema a mais. Quando isso acontece, o rompimento é quase
inevitável, de fato sempre e de direito quando possível.
Porém, o que é verdadeiro para casos matrimoniais específicos não o é
necessariamente para a realidade genérica do matrimônio.
O que precisa ser tido em conta é que o casamento é apenas uma forma
particular de relação entre pessoas humanas, nem melhor nem pior do que
qualquer outra, mas apenas mais complexa e abrangente. E que como em
qualquer forma de relação entre pessoas humanas, a maneira de lidar com o
problema, por mais grave que este seja, é decisiva, para o bem ou para o
mal, na busca da solução desejada.
Os oficiantes de cerimônias nupciais têm o saudável hábito de lembrar ao
casal que todo casamento tem seus dias de crise. É provável que a maioria
dos nubentes veja nisso apenas mais um detalhe obrigatório na composição do
cerimonial. Tempos depois – ou talvez pouco tempo depois - quando a
primeira crise grave irrompe, é quase certo que nem se lembrarão das
advertências pastorais quanto às causas do desentendimento, muito menos
das conseqüentes prescrições destinadas ao tratamento adequado da situação.
Talvez por isso seja mais producente ter algum material escrito à mão, para
repassar as lições na hora necessária.
A Bíblia tem muito a dizer sobre isso, mas o simples texto bíblico, isolado
do conjunto de concepções, práticas e sentimentos que constituem o padrão
da conduta cristã aplicada à união conjugal, tende a permanecer ineficaz no
momento da crise.
Esta crise pode nem começar no quarto de dormir, mas é inegável que costuma
sentir-se muito confortável nele.
A crise na cama
Para algumas pessoas, sexo é uma coisa
simples e natural, praticada sem traumas ou complicações. Para um número
provavelmente bem mais amplo, é um negócio terrivelmente complicado, que
envolve não só a paixão, a emoção e o prazer da fusão de dois corpos em
busca de algo muito superior ao mero efeito físico dela decorrente, mas,
dependendo do caso, também culpa, medo, frustração e dor. A crise se
instaura quando os aspectos negativos começam a ter mais peso na relação do
que os positivos. Em geral, a vida sexual do casal sofre então uma espécie
de recesso não declarado, tornando-se rarefeita e pouco compensatória.
Começa que o balizamento histórico-cultural para as gerações recentes não é
dos mais favoráveis. De um lado está toda a carga repressiva oriunda de uma
interpretação legalista, de inspiração católica, da ética sexual de cunho
bíblico. Nesse sentido, a prática sexual que não leve necessariamente à
procriação é vista como pecaminosa. Do outro, a explosão de amor livre e de
vulgarização do sexo que invadiu o ocidente a partir dos anos sessenta do
século XX.
Nessa perspectiva, o sexo virou uma espécie de vale-tudo tutelado pela ânsia
do prazer a qualquer custo. Virou um fim em si mesmo, desligando-se dos
demais aspectos que lhe infundem sentido dentro da união matrimonial.
No varejo da crise, podem ser várias as causas para o truncamento da vida
íntima do casal. Pode ser a impossibilidade forçada pela doença de um dos
parceiros. Pode ser o excessivo recato e inexperiência de um deles,
considerada a liberdade relativa que o outro entende necessária ao ato. Ou
a exacerbação dessa liberdade, no lado oposto. O que poderia e deveria ser
somente um caso de reflexão conjunta quanto a limites necessários e, de
resto, inevitáveis, torna-se uma discussão de fundo moral permeada de
acusações e hostilidade.
Não é rara a ocorrência do que se pode chamar de falta de vocação para o
sexo no homem ou na mulher: existem pessoas que passariam muito bem sem sexo
mas que passam muito mal quando têm que praticá-lo, e ainda mais de forma
rotineira. Provavelmente, são pessoas com o dom do celibato que, entretanto,
se casam(Mateus 19.11). São a contrapartida para as pessoas sem esse dom
que, entretanto, não se casam. Pode ser o cansaço ocasionado pelas
exigências da vida moderna, deixando pouco espaço para o cultivo de uma vida
sexual saudável e satisfatória.
Há também os detalhes que atrapalham por inabilidade dos parceiros. Sexo é
uma porção de coisas, mas no ato em si é mais atmosfera(o tal “clima” de que
falam os mais jovens), que se configura por meio da sensibilidade, da
percepção e da entrega mútua. Se, por exemplo, fechada a porta, um dos dois
inicia um assunto totalmente alheio à situação do momento, quebra-se a
atmosfera. Se um dos parceiros tem formas de expressão pessoal irritantes,
isso também atrapalha. Um exemplo é o chorinho de cachorro do
personagem-título do romance "O Outono do Patriarca", de García Márquez.
Guinchos à moda suína também não ajudam nada, entre outras bizarrices. Isso
para não falar de uma espécie de “não me toques” que parceiros tendentes a
se melindrar com facilidade levam para o leito, impedindo que o outro fique
à vontade. Ou então no uso político da relação, em que situações do
cotidiano são cobradas na hora menos apropriada para isso.
E há, finalmente, sem esgotar o repertório, a ausência de amor verdadeiro
entre os cônjuges ou a interferência de problemas de outras áreas na vida
sexual.
A crise no mercado
Jorge está desempregado há três anos,
período que, para os padrões brasileiros, nem é tão grande assim. Sustenta-o
sua mulher. Felizmente, no caso, o casal nem tem filhos nem paga aluguel.
Contudo, vez por outra, Sueli confidencia a amigos que já não está
agüentando a barra, mesmo porque o marido perde a guerra mas não perde a
pose. O problema é que ele só admite trabalhar na profissão pela qual se
formou na universidade. Jorge é arquiteto, mas mesmo os arquitetos ficam
sem emprego por muito tempo. Não há como uma situação dessas não afetar a
vida conjugal.
Para a mulher provedora, mesmo sendo uma cristão sincera, é muito difícil
aplicar na prática o preceito bíblico da submissão ao marido beneficiário(Efésios
5.22). A crise está presente e se não explode de vez é porque Sueli têm
tanta paciência em suportar o marido quanto este em suportar uma situação
que a cada dia se torna mais e mais constrangedora – e insuportável. Se não
houver mudanças, o futuro da união é no mínimo pouco promissor.
A crise é inevitável quando a mulher gasta demais e o marido é fanático por
poupança. Ou vice-versa. E tem o poder devastador de um terremoto quando um
dos dois ou ambos praticam o que pode se chamar de dívida compulsiva. A voz
corrente é que as mulheres são as vilãs nessa parte da história, mas isso
parece mais um estereótipo machista. Há mulheres que agem com grande
responsabilidade e equilíbrio, a propósito. Existem homens que lidam com o
orçamento familiar como se fossem crianças, como se não houvesse qualquer
conta a prestar(ou a pagar) ao futuro ou a gastos menos imediatistas e
desnecessários.
Vivemos em uma época na qual a pessoa é estimulada o tempo todo a consumir
por consumir e a dever sem precisar. Existem pessoas que parecem pensar que
sem dívidas a vida não tem sentido. Não é atoa que os bancos obtêm lucros
altíssimos. Casais que não controlam a propensão ao consumo desordenado e
ao conseqüente gasto excessivo acabam com um parceiro cobrando do outro
aquilo que ambos terão que pagar à agiotagem quando esta apresentar sua
face implacável.
É uma ilusão imaginar que as facilidades oferecidas pelo mercado não
incluem seu preço. Assim como não existem almoços grátis, também não
existe financiamento sem juros ou compra com desconto. O que existe é um
negócio que já se chamou propaganda e que hoje se chama marketing, cuja
principal função é, na linha do que pensava um eminente pensador alemão que
atendia pelo nome de Dr. Goebbels, fazer com que , por via de sua exaustiva
repetição, a mentira acabe parecendo verdade.
Quando a situação material não encontra seu ponto de equilíbrio na vida da
família, os efeitos na relação conjugal podem ser catastróficos.
A crise na biblioteca
Trata-se aqui do que pode ser chamado de
defasagem cultural com efeitos negativos na comunicação entre os cônjuges.
Ocorre que pelos caminhos e atalhos da vida Maria acabou indo mais longe do
que João em termos de conhecimento e informação. Ou então João é quem se
atualizou, quem articulou melhor as diversas visões de mundo presentes em
um mundo cada vez mais plural e sofisticado, quem cresceu e continua
crescendo em termos de saber, compreender e realizar, quem, enfim, está
sintonizado com a vida em todos os seus aspectos significativos. Maria
estagnou numa abordagem limitada e estática da vida e dá a entender que não
pode ir mais longe do que já foi.
Se amar, como dizia o melodrama do cinema, é olharem ambos na mesma direção,
o que acontece no caso é que a vista de Maria(mas podia ser a de João) é
melhor em termos de amplitude, alcance e acuidade. Ela entende melhor as
coisas, capta com rapidez as diversas nuanças de um assunto, é mais
inteligente, tem um vocabulário rico e criativo, gosta de ler e consegue
ler nas entrelinhas, interessa-se por temas que extrapolam sua área
profissional ou sua confissão religiosa , preocupa-se com os destinos do
mundo e está disposta a fazer algo, é flexível e firme ao mesmo tempo, cuida
da aparência sem ser superficial e vulgar. E vai por aí.
João(mas podia ser Maria) tem muitas dificuldades em colocar-se no mesmo
padrão, razão pela qual os dois não andam se entendendo bem. Na discussão,
cada vez mais freqüente, ela o chama de burro e ele a chama de metida a
besta, para ficar no publicável.
Pode-se perguntar: “E por que casaram-se um com o outro?” Quem pergunta
isso não conhece bem a alma humana. Mesmo quando unificam seu discurso em
torno da motivação afetiva do casamento, a realidade é que muitos homens e
mulheres casam-se por motivos diferentes do simples fato de amarem o outro.
O papel da atração física nunca pode ser subestimado, muito menos o do
dinheiro ou o do prestigio social. Certas mulheres casam-se meio no
desespero, por causa da idade que vai avançando demais. Além do mais, o
próprio casamento, o tempo e a vida em geral vão mudando o jeito das
pessoas. Há, como foi dito, quem continue crescendo até o último suspiro e
há quem ache que isso é exigir muito de quem nasceu para chegar a um certo
limite e parar aí.
Dessa forma, cria-se entre os dois um irritante diálogo de surdos. O que
interessa a ela não interessa a ele, e vice-versa. Não se trata nem de
assuntos isolados, mas da maneira de abordá-los. Porém, pode ser algo bem
objetivo do tipo um gostar de Bach e outro não achar graça nenhuma nele.
Gosto não se discute e as coisas ficariam razoavelmente bem se esse outro
gostasse, por exemplo, de Beethoven. Talvez nem precisasse chegar a tanto –
mas porque vai gostar logo de pagode e funk?
Conclusão
Esse artigo deteve-se em três fontes de
crise no casamento, sem com isso esquecer a existência de outras, igualmente
críticas. Casais podem entrar em rota de colisão por questões
religiosas(inclusive pelo que um dos dois considera e excessiva dedicação do
outro à igreja, em detrimento da família). Podem se separar por isso, como
também por motivos relacionados a projetos pessoais de vida que não podem
ser conciliados na vida em comum. Podem inclusive brigar feio pelo simples
desgaste de uma rotina conjugal sem criatividade, sem beleza e sem
perspectiva de evolução. Podem se desentender por causa de ofensas
cotidianas não curadas, as quais provocam o ressentimento que mais dia
menos dia cobrará seu preço amargo. Podem, enfim, chegar ao desenlace em
virtude de não estarem devidamente preparados para os desafios da vida de
casados, em especial na questão dos filhos.
O problema é a crise, sem dúvida, mas ainda mais a maneira de lidar com
ela. É preciso lembrar que casamento sem crise é uma casamento pobre. A
crise é a vida em sua realidade. A possibilidade de sua superação é a
possibilidade de crescimento interpessoal e de enriquecimento da experiência
individual e comum. Aqueles que continuam juntos depois do vendaval e
conseguem caminhar sem resignação a um estilo de vida conjugal meramente
tolerável, são os vitoriosos na vida a dois.
Uma atitude que pode ajudar é não ter medo da crise, ou, em outros palavras,
não provocá-la pelo exagero nos cuidados ligados à tentativa de evitá-la.
Seres humanos, mesmo que sejam marido e mulher, se desentendem. Outra medida
prática necessária é não deixar uma discussão ir subindo de tom até alcançar
o nível da agressão moral ou física. Enquanto der para conciliar, que se
concilie. A supressão das causas que provocam a crise é evidente que precisa
ser executada, quando possível. A oração constante sobre a temática conjugal
e familiar é imprescindível (1 Coríntios 7.5), mas, como em relação a
qualquer outro dos assuntos humanos no mundo, não pode ser motivo para o
desleixo em relação ao dever conjugal mútuo. Terapia de casal ajuda também,
quando as bases de um casamento feliz estão presentes, a começar pelo amor.
Sem este o casamento é, realmente, a própria crise.
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