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Se é verdade, como Emerson falou certa vez,
que “o mundo inteiro ama um amante”, então a história de Oséias deveria ser
a mais amada em toda a Bíblia.
Em certos aspectos ela difere pouco de dez mil outras histórias que
acontecem todo ano em Nova York, Londres, Dallas ou S. Francisco. É a
história de um voto quebrado e de um lar desfeito, de um coração partido, de
uma vida destruída. Mas em outros aspectos a história é tão absolutamente
única que está na linha de uma das mais admiráveis de toda a literatura.
Deus escolheu a história triste e sórdida deste profeta de coração partido,
a fim de revelar o Seu coração e manifestar o Seu amor.
Decepcionado no Amor
A história de Oséias aconteceu na cidade de Samaria. Oséias encontrou, amou
e mais tarde se casou com uma jovem mulher chamada Gômer. Gômer deve ter
sido arrebatada por este homem de coração heróico, apaixonado como um poeta
e zeloso como um santo. Ainda que Deus conhecesse bem o desenrolar desse
relacionamento, deu sua permissão para que Oséias cassasse com Gômer.
“...Disse, pois, o SENHOR a Oséias: Vai, toma uma mulher de prostituições e
filhos de prostituição; porque a terra certamente se prostitui, desviando-se
do SENHOR” (Os 1:2).
A vida de qualquer homem é abençoada ou amaldiçoada conforme a mulher com
quem se casa.
Logo que Oséias encontrou Gômer, deve ter pensado que ela era tão pura como
o lírio do vale do seu poema favorito – Cântico dos Cânticos de Salomão. Ele
deve ter esperado que o seu futuro fosse repleto de bênçãos e alegria.
Mas à medida em que se passavam os dias e ele ia conhecendo-a melhor,
começou a ficar decepcionado. Será que as pétalas de sua pureza já não
haviam sido arrancadas e pisoteadas pelas paixões de homens vis e impuros
antes do casamento? Será que Oséias estava ocupado demais para dar à sua
jovem esposa a atenção de que ela necessitava? Talvez jamais venhamos a
sabê-lo. Sabemos apenas que o coração de Gômer se afastou do marido e que
ela foi em busca do afeto de outros amantes.
Oséias deve ter notado e sofrido com esse esfriamento da afeição da esposa.
E não foi esse o único fardo colocado sobre o seu coração. Ele também via
sua nação, a nação de Israel, afastando-se de Deus. Tinha havido uma série
de vitórias militares sob o rei Joás, cujo filho Jeroboão II continuou o seu
sucesso militar e prosperidade, ganhando para si um reinado de quarenta e um
anos. Contudo o Rei Jeroboão afastou de Deus o coração do seu povo. “E fez o
que era mau aos olhos do SENHOR; nunca se apartou de nenhum dos pecados de
Jeroboão, filho de Nebate, com que fez pecar Israel” (2Re 14:24).
Oséias pôde observar que sua nação, embora próspera, eventualmente iria cair
vítima da máquina bélica da Assíria, a não ser que se arrependesse do seu
pecado. Dia após dia, Oséias regressava ao lar com o fardo de uma nação
decadente pesando em seu coração. Noite após noite, ele ficava acordado, a
ponto de prejudicar-se, aguardando o regresso da esposa ao lar.
Certamente ele deve ter orado e visto como era um homem piedoso, levou o seu
fardo ao Senhor.
Filhos do Adultério
Foi então que Gômer deu à luz um bebê. Para
Oséias isso seria uma renovação de esperança. Talvez quando ele segurou
aquele menino nos braços, deve ter raciocinado: “Foi Deus quem o fez. Pois
este garotinho tomará uma mão gorducha e a colocará ao redor do meu peito e
com a outra enlaçará o coração de Gômer e manterá nossas vidas unidas”. “E
disse-lhe o SENHOR: Põe-lhe o nome de Jizreel; porque daqui a pouco
visitarei o sangue de Jizreel sobre a casa de Jeú, e farei cessar o reino da
casa de Israel” (Os 1:4).
Na língua hebraica “Jizreel” significa “se livrar de alguma coisa”, deixar
algo de lado. Era também o nome de uma cidade que havia desempenhado um
papel trágico na história de Israel.
A terrível apostasia sob o Rei Acabe e a Rainha Jezabel havia chegado a um
desfecho ameaçador, quando a rainha foi atirada de uma janela do seu palácio
e o seu corpo foi devorado por cães, nas ruas de Jizreel.
Então quando Deus disse a Oséias que chamasse o seu filho de Jizreel, ele
estava tornando o garoto e sua família, uma lição ilustrativa da relação de
Deus com o seu povo. É como se hoje um pai judeu chamasse o filho de Dachau,
ou Bergen-Belsen, nomes dos campos de horror de Hitler, onde milhões de
judeus foram massacrados durante a II Guerra Mundial. Esses nomes, soando
aos ouvidos de um judeu hoje em dia, iriam arrancar do cemitério das
memórias, fantasmas dos dias passados.
Desse modo, Jizreel era um lembrete a Israel do relacionamento de Deus com o
seu povo. Cada vez que Oséias chamasse o seu filho para brincar, cada vez
que o chamasse no mercado, esse nome iria soar aos ouvidos de um judeu
piedoso como uma nefasta lembrança de que no passado Deus havia sido fiel
para lidar com o pecado da nação.
Contudo, apesar do filho pequeno, Gômer não mudou. “E tornou ela a conceber,
e deu à luz uma filha. E Deus disse: Põe-lhe o nome de Lo-Ruama; porque eu
não tornarei mais a compadecer-me da casa de Israel, mas tudo lhe tirarei”
(Os 1:6). Este nome significa “desgraça” ou “sem misericórdia”.
Depois que Lo-Ruama foi desmamada, Gômer gerou uma terceira criança – o
segundo filho. Por ordem de Deus este foi chamado Lo-Ami.
Esses três nomes dos filhos de Oséias significam duas coisas. Primeiro, eles
nos dão um esboço do que iria acontecer à nação de Israel. Segundo, eles nos
dão um relance quanto ao que iria acontecer com a família do profeta. Pois
este terceiro nome Lo-Ami, significa não meu povo. Mostram que em sua
amargura e sofrimento de coração, Oséias foi dominado por uma suspeita que
se tornou uma certeza condenatória de que essas crianças geradas em seu lar
não eram de modo algum seus filhos!
Indo atrás de uma Esposa Infiel
Muito embora Gômer vivesse em adultério,
Oséias não quis divorciar-se dela. O que aconteceu depois pode ser avaliado,
conforme a mensagem de Deus dada por Oséias ao seu povo no Capítulo 2.
Parece que Gômer o abandonou. Quem sabe ela deixou um bilhete pregado na
porta, dizendo-lhe que estaria indo embora para viver sua própria vida,
deixando as crianças com Oséias, e que este não deveria ir atrás dela.
Então podemos visualizar o profeta, à noite, colocando na cama, seus filhos
para dormir. Ele tem de ser pai e mãe ao mesmo tempo. Ele lhes dá o jantar
frugal e escuta suas orações e depois fica velando até que adormeçam. Mas
Oséias continua insone. Muito embora Gômer tenha abandonado o lar, não
abandonou o seu coração.
Provavelmente, quando Gômer abandonou Oséias, pensou que iria melhorar de
vida. “Porque sua mãe se prostituiu; aquela que os concebeu houve-se
torpemente, porque diz: Irei atrás de meus amantes, que me dão meu pão e a
minha água, a minha lã e o meu linho, o meu óleo e as minhas bebidas” (Os
2:5). Talvez ela tivesse sido iludida por promessas de alimentos exóticos e
roupas excitantes. Mas, como sempre acontece com as pessoas que trilham esse
desastroso caminho, que a princípio parece conduzir às alturas, de repente
muda e cai até às profundezas.
Todo esse tempo Oséias ficou observando a trilha degradante seguida pela
esposa. Eventualmente parece que Gômer caiu nas mãos de um homem incapaz de
prover suas necessidades básicas da vida. Mesmo sem o amor da esposa, Oséias
deve ter decidido prover suas necessidades. Podemos imaginá-lo indo à casa
do amante dela, apresentando-se e dizendo: “O senhor é o homem que está
vivendo com Gômer, filha de Diblaim? O homem responde: “Bem, e se eu for?”
Oséias diz: “Sou o marido dela”. O homem fecha o punho e se prepara para a
luta. Oséias diz: “Não, o senhor não entende. Veja, eu amo minha esposa.
Amo-a profundamente e gostaria de saber se o senhor receberia um pouco do
meu ouro e da minha prata para comprar as coisas de que ela precisa”.
O homem olha espantado o profeta. Contudo, ao ver a prata na palma de sua
mão, ele pensa: “não existe um tolo maior do que um velho tolo”, e concorda
com a proposta do profeta.
Vocês me diriam: “Não é lógico um homem pagar em sonante prata e ouro pela
manutenção de uma mulher que foi falsa com ele”. E concordo plenamente. Mas
o caso é que, conforme se vê, Oséias não está agindo pela lógica. Está
agindo por amor! “O coração tem razões que a própria razão desconhece” (Blaise
Pascal). Pois o amor é de Deus e é infinito. “Amados, amemo-nos uns aos
outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e
conhece a Deus” (1Jo 4:7). Oséias está desempenhando com Gômer o papel que
Deus tem desempenhado com você e comigo, durante toda a nossa vida.
Vejamos então este libidinoso crápula, voltando para casa. Seus braços estão
cheios de coisas compradas com o dinheiro de Oséias. Gômer sai da cabana, vê
o amante com os braços cheios de provisões e se atira sobre ele enlaçando-o
e agradecendo pelo que ele fez.
Em algum lugar por trás das sombras, vemos Oséias. Ele tem uma rápida visão
de Gômer e esta lhe enche o coração. Ele vê quando Gômer extravasa o seu
afeto pelo sensual amante, agradecendo as coisas que o amor do marido lhe
proveu. Em lágrimas Oséias diz: “Ela, pois, não reconhece que eu lhe dei o
grão, e o mosto, e o azeite, e que lhe multipliquei a prata e o ouro, que
eles usaram para Baal” (Os 2:8).
Antes de se zangar com uma mulher como Gômer, gostaria de lembrar-lhe que
você e eu temos feito exatamente isso com Deus. É de Sua mão que recebemos o
dom da vida. Dele temos recebido o alimento para nossas mesas e as vestes
para nossos corpos. Contudo, quão depressa agradecemos a todos e a tudo,
exceto a Deus, que no-los deu. Agradecemos aos amigos, ao governo,
agradecemos o nosso vigor físico, a tudo e a todos, exceto a Deus, de quem
provêm as bênçãos.
Redimindo a Rebelde
Em Oséias 2:9-23, Deus anuncia o seu plano
de dupla face, no sentido de ganhar de volta o seu povo. Primeiro ele diz
que lhe trará dureza, privando-o de todos as boas coisas da vida: “Portanto
tornarei a tirar o meu grão a seu tempo e o meu mosto no seu tempo
determinado; e arrebatarei a minha lã e o meu linho, com que cobriam a sua
nudez” (Os2:9).
Em seguida, quando o seu povo cair na maior miséria, Deus começará a
“cortejá-lo” novamente, procurando ganhar-lhe de volta os corações.
“Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei
ao coração” (Os 2:14). Tanto a justiça como o amor de Deus, fazem parte do
seu plano. Nem a Sua justiça nem o Seu amor permitir-lhe-ão abandonar o seu
povo.
Será que Deus nos ama desse modo? Saltando das fontes escriturísticas, está
a verdade de que Deus nos ama exatamente assim.
Deus dá ao homem o metal da mina. Deus dá ao homem as árvores da floresta.
Deus dá ao homem a destreza manual. O homem com a sua destreza derruba a
árvore. O homem com a sua destreza extrai o metal da mina. Depois do metal
extraído e da árvore cortada, o homem com a sua destreza pega essa árvore e
faz dela uma cruz. Com sua destreza toma o metal e o transforma em pregos.
Em seguida, Deus vem na Pessoa de Jesus Cristo e permite que os homens, com
violência cruel, fixem os pregos em suas mãos. Então Ele morre naquela cruz
por amor de cada homem que ali o colocou, pelas multidões que zombam ao pé
da cruz, pelos soldados que cravaram os pregos em suas mãos. Ele morre ali
por eles e por nós, por você e eu, para que tenhamos os nossos pecados
perdoados, a fim de obtermos vida eterna e possamos ir morar no céu, para
todo o sempre.
No Capítulo 3, descobrimos o último ato deste admirável drama da redenção.
Não apenas Gômer caiu nas mãos de um homem incapaz de prover suas
necessidades. Ela agora caiu nas mãos de um homem que não queria provê-las.
Evidentemente, esse homem decide vendê-la como escrava.
Nos dias em que esta história aconteceu, a escravidão era
institucionalizada. Alguns historiadores contam que quando uma mulher era
oferecida num leilão de escravos, ela era despida de suas vestes e forçada a
permanecer de pé diante da multidão curiosa. Foi evidentemente para esse
lugar que Gômer fora levada e para lá Oséias fora chamado.
Vocês podem imaginar o cochicho da multidão e o comentário que ia de boca em
boca, quando esta viu Oséias. As pessoas diziam: “Ele veio para observar o
que ela merecia. Ele veio para observar o seu castigo”.
Então começa o pregão. Alguém oferece dez peças de prata, outro oferece
doze. E Oséias diz: “dou quinze peças de prata”. Alguém mais diz: “dou
quinze peças de prata e um feixe de cevada”. Oséias diz: “dou quinze peças
de prata e um feixe e meio de cevada”. Soa o martelo e Oséias se apressa em
redimir a esposa. “E comprei-a para mim por quinze peças de prata, e um ômer,
e meio ômer de cevada” (Os 3:2).
Enquanto a conduz para longe da multidão, o povo deve ter dito: “é um preço
alto pago pela vingança. Por que não apenas deixou que ela fosse vendida
como escrava? Por que pagar tanta prata por uma mulher que usou de
falsidade?”.
Mas Oséias não comprou sua esposa a fim de puni-la, mas para redimi-la. “E
ele lhe disse: Tu ficarás comigo muitos dias; não te prostituirás, nem serás
de outro homem; assim também eu esperarei por ti” (Os 3:3). O que Oséias
está sugerindo é : “o que você não faria de sua livre vontade, peço-lhe para
fazer agora como uma possessão adquirida”.
Isso é o que depreendemos através de toda a Bíblia. Deus diz que nos ama e
porque Ele nos redimiu, pede que O sirvamos. O apóstolo Pedro disse aos que
estavam sob os seus cuidados: “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis,
como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que
por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de
Cristo” (1Pe1:18,19-a).
O apóstolo Paulo escrevendo aos Coríntios, membros de uma igreja culpada de
perversão sexual, disse-lhes: “Porque fostes comprados por bom preço;
glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais
pertencem a Deus” (1Co 6:20).
Lições de Oséias
A primeira lição de Oséias é esta: se você
fosse servir a Deus, de hoje até o dia de sua morte, ele não o amaria mais
do que o ama agora. Porque Deus não o ama por causa do que você faz. Deus o
ama apesar do que você faz.
Somos supremamente amados e porque temos sido tão amados, retribuímos com
adoração, serviço, amor e louvor.
A segunda lição talvez seja para homens e mulheres que absolutamente não
conhecem a Deus e jamais colocaram sua confiança em Cristo. É uma lição para
pessoas de corações partidos e lares desfeitos, com sonhos desfeitos e vidas
destruídas. É uma lição para aqueles que das profundezas de suas almas
clamam na escuridão da noite: “onde está Deus? Onde está Ele para que eu
possa encontrá-Lo?”.
A resposta do livro de Oséias é: “Deus não está perdido, você é quem está”.
Este é o Deus que foi à cruz do Calvário, e em busca dos homens, através do
túnel de um túmulo vazio. Sempre e sempre Ele os procura para trazê-los de
volta até Ele.
Quando os homens gritam: “onde está Deus?” A resposta é sempre a mesma.
Deus está aqui mesmo. Ele está esperando por você. Ele pede que você venha
até Ele. Ele o espera para enlaçá-lo com o Seu amor. Ele o apressa a vir
pela fé, a fim de conhecê-Lo e conhecer a significação do amor na verdadeira
profundidade do seu coração.
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